Polegares Inquietos

Mês

Dezembro 2010

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As possibilidades do infinito

O mundo é cheio de impossibilidades, dois caminhos paralelos se encontram no infinito. Assim começava a fórmula com a qual buscava explicar porque a felicidade nunca pode ser completa. Cláudia entrava em sua vida em singularidades do universo, ou de um conjunto infinito de universos. Uma janela eventual permitia que um universo brevemente encontrasse seu paralelo, e nestes momentos estava Cláudia.

“Posso sentar-me aqui?”. Ele já havia espalhado suas coisas pelas quatro poltronas da fileira central do Airbus que ia quase vazio para Frankfurt, onde esperava poder espichar-se durante as onze horas de viagem. “A fileira 30 é a melhor para assistir ao filme.”, disse Cláudia já ajudando-o a arrumar suas coisas sem dar-lhe tempo para pensar. “Quando terminar o filme volto para o meu lugar e podes te acomodar melhor”. Só que agora ele já havia sentido o seu perfume, e seu desejo era que o filme não tivesse fim.

Cláudia, como ele, já assistira inúmeras vezes à “Quatro Casamentos e um Funeral”. Haviam saído com a idéia do “Festival de Filmes Repetidos” para que eternamente celebrassem a memória do primeiro encontro acidental, na viagem para Frankfurt. Cláudia cochichava em seu ouvido a cena seguinte: “Presta atenção agora! É quando ela vai dizer que ele vai ter que se casar com ela…”, como se ele já não soubesse. Abraçados no cinema eram mais um casal entre os tantos naquela nova cidade que o destino lhes havia reservado.

O “eu-te-amo” saiu fácil e foi correspondido, ainda que nenhum dos dois lembre quem disse o primeiro. Saiu da alma, antes que dos corpos, o primeiro “eu-te-amo”, antes mesmo que as bocas se encontrassem, quase que por um descuido programado, durante “A Bela e a Fera”, da Disney.

O mundo era outro no abraço de Cláudia. O tempo era eterno e o amor sempre novo. Os universos todos equilibravam suas energias naquele momento em que seus caminhos paralelos se encontravam. Com Cláudia havia descoberto um improvável infinito matemático, que ela destruía com a mesma facilidade que criava.

O “eu-te-amo” transformou-se em “acabou” num velho cinema de Amsterdan, ou São Paulo. Já faz tempo… Cometeram o pecado de tentar driblar o acaso para assistir “Summer of 42” (acho que foi Amsterdan), o filme preferido dos dois. Não deixaram acontecer: planejaram. Talvez soubessem, ainda que inconscientemente, que sua missão de equilibrar os universos um dia chegaria ao fim. Cláudia cochichou ao seu ouvido: “Ele ainda não sabe que ela recebeu a carta que tanto temia…”. Foi São Paulo, com certeza. Em Amsterdan o lanterninha não teria se importado. As pessoas deviam aplaudir e não reclamar quando o amor quer ultrapassar os limites.

O destino seguiu seu rumo. Ele encontrou Cláudia em outras rotas, mas nunca mais os universos paralelos se encontraram numa singularidade. Ele sentiu que tudo era passado num vôo para San Francisco. Cláudia, ao seu lado, assistia a um filme diferente. Fred Astaire nunca dançou com tanta tristeza em “Desfile de Páscoa” e “Top Hat”. Ambos conheciam o fim, mas ele ainda disse “eu-te-amo”, sem saber o que esperar como resposta.

(Cesar Brod)

Dec 26, 2010
#contos
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Dec 26, 2010
Crônicas da Latinoware 2010 - Parte 6 → brodtec.com

Foi o historiador Peter Salus quem me disse que eventos de tecnologia devem ser educativos e divertidos. Isto foi em 2001, no Annual Linux Showcase que aconteceu em Oakland, na California, onde…

Dec 21, 2010
Dec 20, 2010
#latinoware
Dec 19, 2010
#humor
Dec 19, 20102 notes
#Olivia Wilde #Tron #ficção científica
Dec 19, 20105 notes
#tumblrgiftguide #dexter
Dec 19, 2010666 notes
Dec 18, 2010
#social networks #redes sociais #clickey #tag
Merry Christmas Mr. Lawrence Marco Marzola Trio

Muito bom!

theantidote:

 

Merry Christmas Mr. Lawrence by Marzola Trio [Sushi Bar, 2008]

(via brightsizelifekr: / grooviejazz:)

another version!

Dec 17, 201079 notes
São Paulo

É estranha a minha relação com São Paulo. Lembra a de uma namorada antiga. Depois de um fim doído, só ficam as boas lembranças. Abri a janela do 12.o andar de um hotel na Faria Lima para poder dormir com o barulho dos carros e da buzina que ouço longe em um túnel que nem sei qual é. Me relaciono com a cidade com um carinho que não tem mais porque, para sonhar com caminhos de volta que não quero e nem mais existem. O carinho agora é um carinho novo de tudo o que uma vez já foi. As luzes nas janelas vizinhas escondem de mim tudo o que podia ser e não foi, nem será.

Caminhar pelas ruas (onde tanto caminhei) trazem uma saudade estranha de um não querer voltar. Mas o que antes era desgosto é agora uma melancolia que define-se em si, e não requer explicação. São Paulo traz a delícia e a dor de que sou mais um anônimo, outra vez, e me divirto com isto. A cidade tem seus perigos dos quais ainda não dou conta, e navego imune por esquinas novas —- pois mesmo as esquinas velhas não se conservam a cada novo dia. São Paulo tem esta coisa de não repetir rostos, histórias e dores. São Paulo é sempre inédita em seus prazeres e descuidos.

São Paulo não dorme e não me deixa dormir. A necessidade de um estar presente, sempre, contagia até mesmo a quem não deveria mais ser estranho. E a São Paulo sou tudo, menos estranho. O mapa mental que tenho das cercanias me faz identificar que alguém cantou os pneus na Berrini, e outro ainda volta tardiamente da praia, em plena segunda-feira à noite, pela Bandeirantes. Os aviões voam baixo na noite sem nuvens da Ruben Berta, aqui perto. Chegar em Congonhas é sempre um rasante incômodo, mas necessário. O ritmo da cidade é necessário. Uma inevitável música em acordes dissonantemente dodecafônicos. Pierrot Lunaire Remix. Schöenberg revoltando-se na tumba.

Segue sem meus agrados, São Paulo. Mas não te odeio mais. Antes: te odiar como odiei beira um amor que não consegui explicar e ao qual eu não sobreviveria. Fugi de ti para me encontrar em mim, e para poder te visitar como quem visita um primeiro amor ao qual não se volta mais. Segue adiante teu rumo do qual não faço parte, do qual não faz parte ninguém. Reinventa-te como sempre, no infinito coletivo da soma dos teus anônimos.

(Cesar Brod)

Dec 17, 2010
#contos
Crônicas da Latinoware 2010 - Parte 5 → brodtec.com

Cada vez mais fala-se em negócios na Latinoware. Na edição de 2010 privilegiamos a apresentação de vários modelos de negócios de toda a América Latina, em sessões que ocuparam boa parte do auditório…

Dec 16, 2010
Merry Christmas Mr.Lawrence -Theme- Ryuichi Sakamoto

Puxa, descobri que eu estava com saudade dessa música. O filme, Merry Christmas Mr. Lawrence, que tinha o David Bowie como protagonista, recebeu o criativo nome de “Furyo, em nome da honra” no Brasil. Vai entender.

theantidote:

Ryuichi Sakamoto - Merry Christmas Mr. Lawrence Theme

(via brightsizelifekr:)

Dec 16, 201040 notes
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Dec 15, 2010
Dec 15, 2010
So Liguei chie

Sensacional gravação da música Só Liguei, de Kleiton & Kledir, pela cantora japonesa Chie Umezawa.

Só Liguei

(Kleiton & Kledir)

Só liguei
Porque ouvi dizer
Que você falou em mim

E tentei pensar
Em deixar pra lá
Mas não deu
Não é assim

Se você
Quiser me ver, sei lá
Tô aqui
É só ligar

Desisti de vez
Eu não sei, não sei
Apagar você de mim

Vou gostar
De te ver
De sair pra jantar
Ver o bem que me faz
E quem sabe até um pouco mais

Só liguei, enfim
Pra tentar dizer
Pra você voltar pra mim.

Dec 15, 2010
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Dec 15, 2010
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Dec 14, 20102 notes
O Palhaço Pindulico

image

Pindulico, o palhaço,
Era o astro do Circo
E não só por ser palhaço,
Por ter a cara pintada
E esbanjar gargalhadas, não!
Toda a graça do rapaz
Tinha uma outra razão:
Pindulico era pequeno,
Muito menor que o anão
Não, não como você pensou,
Ele ainda era menor
Ele era do tamanho
Do dedão da sua mão!

E nos dias de parada
- Que era quase todo o dia -
Então era uma piada!
Pindulico se escondia
E ninguém sabia onde…
Nosso Circo percorria
Toda rua da cidade
E um vozeirão se ouvia
Mas de onde ele vinha,
Você não imaginava!

E gritava:
- Hoje tem marmelada?
E o povo acompanhava:
- Tem sim senhor!
E continuava:
- Hoje tem goiabada?
E as crianças:
- Tem sim senhor!

E eram velhos e crianças,
Todo mundo escutando,
Todo mundo perguntando
De onde será que vinha
Uma voz assim possante?!
E quando enfim descobriam
Era uma só risada!
Pois a voz era dum nanico
Que estava escondido
Na orelha do elefante!

À tarde, então, todo mundo
Saia da sua casa
Iam todos ver o circo!

As crianças não continham
Uma ansiedade - que é assim
Quase uma dor de barriga.

Quando abriam as cortinas,
Desfilava todo o circo
Mas cadê o Pindulico?
Ele não aparecia …
Vai ver era uma surpresa,
Era o número seguinte!

E assim se sucediam
Mágicos, Tigres, Leões
- Todos lindos, que beleza! -
Mas o que todos queriam,
Este até agora nada …

E o circo ia adiante,
Motos, trapezistas,
Cavalos, equilibristas.
Quando vieram os palhaços
As palmas eram bem fortes!
Mas aquele palhacinho
Que todo mundo esperava,
Aquele, nada …

Aí o circo acabou
E para o “Grand Finale”
Vieram todos os bichos,
Veio tudo que é artista
E os olhos da criançada
Que mesmo com tanta beleza
Tinham um brilho meio triste
Se acenderam quando ouviram
Aquele vozeirão enorme!
Mas de onde ele vinha,
Você não imaginava!

E gritava:
- Hoje tem marmelada?
E o povo acompanhava:
- Tem sim senhor!
E continuava:
- Hoje tem goiabada?
E as crianças:
- Tem sim senhor!
- E o palhaço, o que é?
- É ladrão de mulher!

Mas traído pela sorte
Nosso tímido amiguinho
Que andava sempre escondido,
Acabou se dando mal.

De tanto lugar prá esconder,
Ele foi logo escolher
O rabo de um animal
- Um cavalo, prá ser claro -

Pois o bicho,
Pobrezinho, não sabia!
Sentiu aquela dorzinha
E resolveu soltar um pum!
O pum veio meio quente,
Misturado com cocô,
E o Pindulico, adivinha?
Foi cair todo cagado!
Todo fedido, o coitado,
No meio daquela gente!

Todo cheio de vergonha,
Mas todo orgulhoso que era,
Juntou toda a voz que tinha
E gritou:
- Viva, viva a criançada!
- Viva, viva o nosso Circo!
Todos então aplaudiram,
Todos deram risada
Achando que aquilo tudo
Fosse mais uma piada!

Se foi ou não, eu não sei …
Sei que hoje o Pindulico
Não escolhe prá esconderijo
O rabo de nenhum bicho.

Mesmo assim, se não tem jeito,
Se não sobra outro lugar,
Com uma rolha anda armado,
Afinal, um grande artista,
Tem que estar bem preparado!

FIM

(História de Anselmo Brod recontada por Cesar Brod)

Crédito da imagem: http://www.cookiejar.com.au

Dec 13, 2010
#contos #poesia
A volta dos momentos

“Você mexe com momentos meus
que já estavam tão longe
e traz tudo de volta
e agora o que é que eu faço
com isto tudo aqui?”

A voz da Ná Ozetti já estava rouca de tanto cantar a mesma música. Quando a saudade aperta os velhos discos de vinil voltam para o toca-discos. Também pudera. Receber pelo correio uma carta justamente nestes tempos de e-Mail. O envelope com as faixas verde-amarelas e o quadradinho onde dizia “via aérea - par avion”. Quando era pequena achava que tinham escrito errado no envelope, que deveria ser “via aérea por avião”, ainda que parecesse meio repetitivo. Precisou aprender francês para rir da sua ignorância infantil. No selo a Torre Eiffel. “Será que ele levou o envelope daqui?”, pensou. Na França, certamente, não se preocupariam em traduzir o “par avion”. E pensar que, em tempos de e-Mail, já houve época em que se usavam envelopes diferentes para enviar cartas por via aérea, par avion. O selo até era mais caro, mas chegava mais rápido. Tantas imagens voltaram à sua cabeça mesmo antes de abrir a carta, mesmo antes de olhar o remetente - mas mesmo sem olhar, já sabia que a carta era dele. Quem mais, na França, lhe escreveria uma carta? Ainda assim, virou o envelope, que de tão fino já a deixava identificar sua caligrafia. O que ele queria? Será que ia voltar? Já haviam perdido contato há tanto tempo… Coisas que acontecem: telefone uma vez por semana, e-Mail quase que diário, um cartão postal que outro, até que o tempo entre cada uma destas coisas vai aumentando: pessoas são pessoas mesmo. O Universo não se expande por acaso, começa com as pessoas se afastando umas das outras. O LP ainda era do tempo em que a Ná Ozetti cantava com o grupo RUMO, a música era do Luiz Tatit:

“Tem sido tão desconcertante
que eu fiquei sensível…”

Ele nunca falava nada a sério, e quando disse que iria para a França também pareceu brincadeira. “Meu Deus, quanto tempo!”, pensou ainda sem abrir a carta. Colocou-a ao lado do toca-discos e pôs a música mais uma vez para tocar:

“Você mexe com momentos meus…”

A garrafa de conhaque não era aberta há muito tempo, mas agora não tinha porque ficar fechada. A cor do conhaque lembrava a dos olhos dele, um castanho meio aguado. Prometeu que iria visitá-lo em Paris, só para poder dizer, quando acabassem o romance que nem haviam começado, a mesma coisa que o Humphrey Bogart disse para a Ingrid Bergman em “Casablanca”: “We will always have Paris…”. Ele não levou a sério quando na despedida do aeroporto ela disse: “eu ainda nem disse que te amo.”. Só abriu um sorriso e respondeu: “Vais ter tempo de me dizer isto em Paris!”. Nunca mais tocaram no assunto. Agora, com a carta na mão ela pensava que o medo de ter que dizer “eu te amo” foi o que a impediu de ir para Paris. Um “te amo” é coisa séria, tem que ter outro “te amo” como resposta. Ele nunca falava sério. Mesmo que lhe desse um “te amo” como resposta, como ela ia ter certeza de que não era brincadeira? Na dúvida, quem venceu foi seu medo. Quantas outras coisas ela havia deixado de dizer na vida…

“Você mexe com momentos meus que já estavam tão longe…”

Dormiu na sala ao lado do toca-discos e da garrafa vazia de conhaque. Ainda com dor de cabeça foi à agência dos correios e disse ao atendente que o endereço na carta era o dela, mas que lá não morava nenhuma pessoa com o nome do destinatário.

(Cesar Brod)

Dec 11, 2010
#contos
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