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Distraí-me com muitas coisas na crença de que era dono de meu mundo. Distantes de mim as pessoas que amava, eu montava móbiles e miniaturas. A primeira foi o Jolly Roger, o navio pirata das histórias de Peter Pan, o menino que se recusava a crescer. Recriei o Jolly Roger, em detalhes, esperando minha primeira filha.
Não satisfeito com o kit da Revell, desconstruí-o e recortei detalhes, como se pudesse detalhar cada pedaço daquela nau em instantes de sua criação e futuro. Recortei a caveirinha da proa e reconstrui, com linha e pano, cada uma de suas velas. Revelei, no kit prefabricado da Revell, minha necessidade de controle sobre o futuro.
Um dia, do nada, o Jolly Roger foi derrubado de seu pedestal com suas velas precisas. Cheguei em casa e só notei a pequena caveirinha, denunciando o desastre, perdida em meio ao carpete. As Enterprises, do seriado de ficção do qual eu tanto gostava jaziam, também, destruídas.
Era o fim anunciado de um passado de sonho e de um futuro que eu não viveria. Era a vida. É a vida. Nada diferente daquela que todos vivem. A filha, pequena de meses, que retornava à casa com meus totens destruídos, sequer apercebeu-se deles e seguiu adiante, cresceu, virou mulher, mãe de meus netos.
Eu tive, nos cordames do Jolly Roger, a certeza de que a dinâmica da vida não respeita certeza nenhuma.
Cesar Brod, agosto, 2011