
Carlos já tinha praticamente esquecido aquilo que resolvera achar que foi um sonho ao final de um dia longo. Quando morava em São Paulo já tinha “sonambulado”, uma ou duas vezes, e esta explicação lhe foi suficiente por alguns meses. Sua mulher havia viajado para São Paulo com as crianças para visitar sua família e Carlos ficou, pela primeira vez em sua vida, sozinho na casa. A casa nunca lhe despertara medo algum, mesmo depois que uma conhecida de sua tia disse “sentir presenças” nela. “Se tem alguma presença é da família mesmo, e aí está tudo bem”, retrucou uma outra tia.
Tinha acabado de jantar e ia assistir a um filme que havia alugado quando ouviu barulhos no andar de cima. Como estava ventando, imaginou que era alguma janela batendo e subiu para fechá-la. Ao chegar ao andar de cima viu que a luz do quarto que dividia com seus primos quando era pequeno estava acesa e dirigiu-se a ele para apagá-la. Sentado em uma das camas estava um jovem de seus 14 anos, que rapidamente tentou esconder uma revista que estava lendo. “Credo, que susto!”, disse o rapaz. Carlos também havia se assustado, até porque, desta vez, imediatamente reconheceu que o rapaz sentado na cama era ele mesmo, ou o que era ele há mais de 20 anos. “Tu não sabe bater na porta?” - perguntou sua imagem mais jovem. Carlos só conseguiu pedir desculpas e fechar a porta. Imediatamente a luz se apagou e, quando Carlos abriu novamente a porta, apenas a luz que vinha da lua cheia iluminava o quarto pela janela aberta.
Desceu as escadas e chegou a colocar gelo em um copo para servir-se de uma dose de whisky, mas desistiu. Seja o que for que acontecera preferiu refletir sobre isto sem a ajuda do álcool. Logo pensou que estava ficando senil antes de completar 40 anos. Sua avó havia falecido há pouco tempo, e lembrou-se que nos últimos meses de sua vida ela costumava enxergar pessoas que faziam parte da sua infância, seus próprios pais, e conversava com eles. “Estou ficando louco.” - disse a si mesmo.
Logo em seguida associou a experiência que teve há poucos meses com esta. O menino que lhe pediu para encher os pneus de sua bicicleta também era ele, ainda mais jovem. Sentiu-se num conto de Dickens: “Eu sou o fantasma dos natais passados…” - recitou, divertindo-se com sua comparação. Mais uma vez, preferiu não pensar mais no ocorrido, mas sem a desculpa do cansaço e da bebida desta vez foi mais difícil.
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por Cesar Brod