
“¿Qué es parpadear?”
“¿Cómo?”
“Parpadear. Yo estaba leyendo una poesía de Galeano donde usaba la palavra parpadear…”
“Ah, sí, parpadear es quando cierra y abre tus ojos…”
“Piscar!”
“¿Qué?”
“Piscar. Es como lo decimos en portugués.”
Parpadear, mais uma palavra nova. Tinha facilidade com línguas e um gosto por aprendê-las nos países que visitava. Comprava um livro ou dois e prestava muita atenção na pronúncia e no gestual dos nativos. Em poucos dias, a mecânica gramatical básica e um bom vocabulário já lhe davam confiança suficiente para conversar com naturalidade em uma língua que não era a sua. Cada idioma, para ele, tinha uma característica especial: o inglês para os negócios; o italiano caia sempre bem com um bom vinho e uma paixão arrebatadora, mas efêmera; para o amor mesmo, tinha que ser o francês. Sua teoria era a de que, se faltassem palavras aos verdadeiros amantes, o único diálogo possível seria em francês.
Agora aprendera o espanhol: a língua da verdade. Descobriu logo que não era possível mentir em espanhol. Primeiro surpreendeu-se quando simplesmente não conseguiu deixar de manifestar seu gosto por um vinho que haviam pedido no jantar. Como era ele o convidado, o garçom lhe serviu a prova. Achou o vinho péssimo e pediu ao garçom que trouxesse outro, um vinho local que já conhecia. Seu anfitrião, que havia recomendado o primeiro vinho, após poucos segundos de surpresa muda abriu um largo sorriso e disse aos outros que estavam à mesa: “Acá tenemos un hombre con quien podemos nosotros hacer negocios”.
-oOo-
Chovia muito na volta a Montevidéu. No rádio diziam que o aeroporto de Carrasco poderia ter vôos cancelados, mas isto não o incomodava. Estava ansioso por saber como seria sua vida dali para a frente. Quando chegasse em Porto Alegre e começasse novamente a falar sua própria língua, será que sentiria falta das máscaras que antes pareciam tornar a sua vida mais fácil? Será que havia realmente enterrado todas as suas máscaras nas dunas de Cabo Polonio?
As viagens mudam as pessoas, mas esta havia trazido à tona seu eu verdadeiro, e lhe dado uma nova compreensão do mundo.
-oOo-
Sentou-se em frente à escultura da mão na Playa Brava. As cores no céu já anunciavam o nascer do sol. Ela saía do mar naquele instante e caminhou em sua direção.
“¿Llegaste ahora?”
“Sí.”
“Qué pena tengo yo de ti, cariño…”
“¿Por qué?”
“No podrás mirar al gigante, ni escucharlo…”
“No comprendo…”
“En las noches de luna llena el gigante se va al mar, se baña y después canta a las estrellas. Entonces vuelve bajo a la tierra y sólo quedan afuera los dedos de su mano. El gigante es un tipo muy guapo, como tú…”
O sol nascia agora por traz dela, que estava emoldurada pela mão do gigante. Um trovão que se ouviu ao longe já era o prenúncio de que o tempo iria mudar. Ela começou a cantarolar uma música e o puxou para dançar um tango louco ao sol nascente, entre os dedos do gigante.
“Cierra tus ojos. No los abras hasta que te llame…”
Beijou seus olhos fechados e sentou-o na areia.
“No los abra!”
Alguns segundos depois ouviu sua voz: “Ahora!”
Abriu os olhos e não mais a viu. Um novo trovão lhe deu a nítida impressão de que o gigante movera seus dedos.
-oOo-
A música, o vinho, os dois na medida exata ou errada fizeram com que aquele luau na Playa Mansa parecesse cada vez mais estranho. Saiu do pequeno círculo de tochas no meio do qual todos sacudiam ao som da “marcha” e seguiu em direção à calle La Angostura, caminho para a Playa Brava. Antes de cruzar a avenida voltou seus olhos novamente ao luau. Da “marcha” só ouvia agora a batida grave de um bumbo, ao som do qual, sob a lua cheia e em meio às tochas, as pessoas pareciam dançar uma coreografia tribal, exorcizando seus demônios ou chamando chuva.
A lua, de tão grande, não parecia natural. Ele passou a ver todo o cenário como um palco, com as pessoas dançando ao centro: títeres manipulados por cordas amarradas aos dedos de uma mão gigante escondida na escuridão, além da cortina das estrelas.
-oOo-
Quando começou, cada vez mais, a pensar em espanhol, parecia que não só descobria verdades e sentimentos que havia comodamente esquecido (ou escondido), como também parecia que o mundo começara a revelar seus próprios segredos.
Cada passagem da sua vida aparecia-lhe, agora, mais clara, como se visse a ação das engrenagens do destino e a real intenção motivando as ações das pessoas com as quais se relacionava. Via agora que devia desculpas a alguns, que tinha assuntos a terminar com outros, e que tinha consideração ou apego demais a pessoas que sabiam usar as máscaras das quais ele gostava, mas que eram, afinal, só máscaras.
Viu também que muitos usavam as máscaras com tal naturalidade que nem mais se davam conta de que as estavam usando. Viu que ele mesmo era assim.
O sol já se punha nas dunas de Cabo Polonio enquanto ele se entretia em descobrir, uma a uma, as máscaras que já usara por obrigação, medo ou conveniência. Colheu um punhado de conchas na areia e numa espécie de ritual enterrava uma a uma, cada uma representando uma das suas máscaras.
Ao final, olhou encantado o balé das baleias no mar, e o gigante que com elas nadava.
-oOo-
O pequeno Jet Class saiu com pouco atraso, brigando com a tempestade. Ao passar do limite das nuvens, porém, o céu estava claro. Abaixo, os raios ainda tingiam de vermelho as nuvens e ao longe ele podia ver claramente o gigante brincando com seus títeres e cantando para a lua.
Restava agora saber como seria a vida depois de ter visto o gigante, enterrado suas máscaras, e dançado um tango com sua alma.
(Cesar Brod)
por Cesar Brod

Primeira vez
Amanheceu assim, assado
Um céu azul inesperado
Inês parada mal ouvia
O despertar de mais um dia
Inês, assim, desesperada
Continha em si, a madrugada
Negava, em vão, o amanhecer
Queria é desvanecer
Na luz de tudo o que se deu
No passado que já foi
Em um dia sem depois
Mas com o sino, à distância
Numa paz desoladora
Estava a madre superiora
(Pela primeira vez
Tinha Inês
Um pecado a confessar)
Cesar Brod, dezembro de 2010
por Cesar Brod

“Mierda de taco!”
Este era o seu despertador: a voz de Madame Violeta esconjurando o taco solto na entrada da cozinha. Era este o sinal para que se desvencilhasse das pernas de Margarida, com todo o cuidado para que ela não acordasse. Já tinha um ano inteiro que dividia a cama com Margarida, e só com Margarida, depois de já ter experimentado todas as flores do jardim de Madame Violeta. Todas as meninas da casa tinham nome de flor. Não eram nomes verdadeiros, claro. Madame Violeta as batizava assim que começavam a trabalhar na casa, discretamente conhecida pelos homens de Cantar e de todas as vilas e cidades vizinhas por “Floricultura”. Por causa disto, ele também deixara seu nome verdadeiro no passado, assim como boa parte de sua vida. Ali ele era o Lírio.
“Negro de mierda! Me conserta este assoalho!”, gritava para Lírio Madame Violeta, enquanto lhe servia o café e o pão com banha de porco aquecido na chapa do fogão. “Que vida, negro, que vida!”, continuava resmungando Madame Violeta enquanto já começava a entreter-se com sua costura. Consertava, fazia e refazia as roupas que as moças iriam usar à noite. Nenhuma podia repetir o traje, e Madame Violeta já sabia de cor as medidas de cada menina. Uma vez por semana ia à Boa Vista trazer mais tecidos para novas roupas, sempre levando consigo Lírio e uma das meninas, uma de cada vez, num rodízio que elas mesmas controlavam, ansiosas.
Lírio acabou em Cantar por puro acaso. Saiu do sul também por acaso. A vida de Lírio era um acaso atrás do outro. Ouvia de um lugar onde podia ganhar dinheiro fácil com o contrabando e lá se ia. Assim foi parar na rota Manaus, Boa Vista, Caracas. Bem apessoado e de fala macia, Lírio comprava bem e vendia bem. No auge do dólar barato chegou a conhecer Miami e um que outro lugar no Caribe. Pegava um ônibus em Boa Vista e da Venezuela pegava um vôo barato para algum lugar, sempre em boa companhia. Poucas vezes pagou pelas viagens. A maioria sua companhia pagava, em troca de ter Lírio de enfeite ao seu lado. Quando o real passou a comprar cada vez menos dólares Lírio resolveu dar um tempo no contrabando. E por acaso conheceu a “Floricultura”. Madame Violeta queria uma TV de 29 polegadas para que seus clientes pudessem assistir à copa de 98 e Lírio tinha uma que ainda não vendera. Madame Violeta achou que Lírio fosse só um entregador e ofereceu-lhe um emprego na casa. “Tu és forte, negro. E necessito de um negro forte.” Assim, entre leão-de-chácara e joão-faz-tudo Lírio ganhou seu nome de flor e foi ficando na floricultura.
Jovem e bonito, Lírio acabava a noite invariavelmente na cama de uma menina que tinha ficado sem freguês, às vezes na cama de duas ou até de três. Até se apaixonar por Margarida e passar a dormir sempre com ela, mesmo nas noites em que ela tinha tido um ou mais fregueses. Lírio e Margarida eram felizes. O amor que tinham era daqueles sem cobranças, sem passado. E o passado era apagado toda a vez que deitavam juntos. Lírio fechava a casa enquanto Margarida se limpava do dia, dos fregueses da noite, e se perfumava com alguma sobra dos tempos do contrabando. Sempre que se deitava Margarida ainda estava se arrumando. “Tu não vem, Margarida?”, “Já vou, Lírio!”, “Dá pra vocês calarem a boca!” - dizia uma menina ou outra. Na verdade, as meninas se divertiam imitando ou fazendo eco ao chamado de Lírio e à resposta de Margarida: “Tu não vem, Margarida?”, “ida”, “ida”, “ida”. “Já vou, Lírio”, “írio”, “írio”, “írio”. Até que Madame Violeta encerrasse com um eco final ouvido entre as paredes finas de madeira, para o deleite de todos: “Que se calem, mierda! Quero dormir!”.
Sem maiores pretensões, seguiam felizes Lírio e Margarida, até a chegada do “Viejo”. Terno de linho branco e cheirando a dinheiro, logo foi assediado pelas meninas na primeira noite em que apareceu na floricultura. Daí em diante deitou-se com várias, repetindo algumas. Sempre que deixava a casa pedia que Lírio ligasse seu carro enquanto tomava uma última dose de whisky. Sempre deixava no bolso da camisa de Lírio uma nota de 20 ou 50 dólares. Para as meninas dava ainda mais dinheiro.
Tudo ia bem até que o Viejo descobriu Margarida. Passou a repetir Margarida e a voltar mais seguido. Passou a deixar 100 dólares com Lírio a cada vez que deixava a casa. Margarida começou a mudar, e Lírio preferiu não perceber. Uma noite o Viejo não foi embora e Lírio dormiu sozinho.
“Mierda de taco!”, e Lírio acordou com o Viejo já na cozinha tomando um café e comendo um pão com banha. Mostrava a Madame Violeta uma aliança e um punhado de dólares, e disse que ia levar Margarida com ele.
O taco entrou afiado como uma faca na cabeça branca do Viejo. “Por Deus, negro!”, já chorava Madame Violeta. Lírio não se despediu de Margarida e nunca teve certeza se, afinal, havia matado mesmo o Viejo. Fugiu para a Guiana onde provavelmente vive até hoje.
O Viejo morreu mesmo, isto Madame Violeta me contou junto com tantas outras histórias. Para a polícia Madame Violeta contou que o homem havia tropeçado e caído de cabeça no taco solto. Acho que a polícia só acreditou porque todas as meninas confirmaram a história, e uma delas, a Dália, deu de graça pro delegado. Eu mesmo não tenho certeza se a história é toda de verdade ou se a Madame Violeta só exagera para que eu não me amarre em nenhuma menina. A primeira vez que ela me contou do Lírio foi quando eu repeti umas três noites com a Rosa.
A Margarida queria mesmo ter casado com o Viejo, mas as meninas juram que ela amava mesmo era o Lírio. Madame Violeta deu o punhado de dólares todinho para a Margarida, que às vezes ainda vem visitar a floricultura com o filho dela, que ela diz que é do Viejo, só que o guri é pretinho como o Lírio.
O engraçado é que eu acabei na floricultura por causa de outra TV. A Madame Violeta queria uma de 33 polegadas para que os fregueses assistissem a copa de 2002. Eu já estava me enjoando do contrabando mesmo…
(Cesar Brod)
por Cesar Brod

L’Instant, de Guerlain. Naquele momento, o que eu queria mesmo era um instante. Ela me tirou da tristeza e do sério num instante. Eu nunca tinha visto alguém demonstrar perfume daquele jeito. Acho que não fazia parte da demonstração ela ter olhado para trás, para mim, e ter repetido “L’Instant…”. Acho que não fazia parte da demonstração tudo o que aconteceu dali em diante. O instante. L’Instant. Em francês é mais bonito. Em Paris mais ainda.
Free Shop. Charles De’Gaule. L’Instant, de Guerlain. Passou bem perto de mim. A guria era virada em pescoço. Os cabelos presos de um jeito rebelde em um coque que parecia ter sido feito às pressas, num instante. Um instante estudado. Cuidadosamente desgrenhados, alguns fios de cabelo escorriam pela sua nuca. Ela não devia ter olhado pra trás, pra mim. Tudo podia ter ficado no instante inicial. Tenho sérios problemas com medidas de tempo: instantes e momentos, dias, horas… Que horas são? Quanto tempo durou? Não sei…
De repente, eu já estava no fim do pescoço. De repente é uma marca no tempo. Não é momento nem instante. Naquele momento, toda a espinha era pescoço, que se acabava no instante em que as costas mudavam de nome. Eu nunca soube muito bem o que queria, mas naquele momento, eu queria um instante. L’Instant. Esse Guerlain é bom de marketing.
Eu devia ter me controlado, mas a culpa foi dela, do instante, L’Instant. O pessoal da loja podia ter me parado antes. Tenho problemas com medidas de tempo, e nem uso relógio. Depois que ela repetiu L’Instant e eu mordi delicadamente sua nuca, não tinha mesmo mais volta, mas tinha todo o tempo do mundo para evitar o depois. Só que eu não sabia do depois. Naquele instante tudo virou urgência. Ela podia ter fugido, me batido, mas não. Arqueou as costas e me olhou com um desejo imediato, de momento, num instante. Não virou todo o corpo, só a cabeça. Mordeu o lábio inferior e não chegou a repetir “L’Instant” pois eu ocupei a sua boca com a minha. Era a hora de parar. O pessoal da loja devia saber que isto não ia dar certo. Eles deviam ter experiência com estas coisas. Ou éramos inéditos? Inédito é outro espaço de tempo, um conjunto de acontecimentos que não aconteceu antes.
Já não eram mais poucos os fios desgrenhados. Tudo estava desgrenhado. Desgrenho é uma coisa louca, ainda mais na nuca. O vestido não deixava entender muito bem a divisa entre as costas e a nuca. A guria tinha um pescoço sem fim, mas eu devia ter parado pela metade para não apavorar os transeuntes. Transeunte é palavra que só se usa quando se escreve. Ao menos eu acho. Nunca abordei ninguém chamando “Ei, transeunte!”.
Agora ela já estava virada de frente pra mim, mas eu nem a via. Não enxergo muito bem de perto. Hipermetropia. Ela devia ter umas cinco mãos. Eu tinha sete. Todas estavam entre o pescoço e as pernas dela. Duas agarradas em cada banda da bunda. Ela podia não ter correspondido. Devia ter corrido quando olhou para mim pela segunda vez e percebeu o desgrenho nos meus olhos, a estranheza dos transeuntes. Ela correu pro lado errado, pro meu lado. Deu no que deu. Mas polícia também foi exagero. Quem chamou foi um transeunte. Só pode… Transeunte filha da puta!
Também, quem mandou ela gemer baixinho quando mordi sua nuca? Onde está o profissionalismo? Quando tudo começou eu estava com as duas mãos ocupadas. Quando terminou também, mas com outras coisas. Quem planejou aquele vestido já estava pensando em sacanagem. Duas alcinhas e deu pra bolinha. Tchum, tchum, chão. Sem sutiã e com uma calcinha que também nem contava. Mas ela não precisava ter arqueado as costas. E eu não tinha nada que ter largado as minhas coisas todas no chão e nem me ajoelhado para seguir a trilha do pescoço abaixo. Ela tinha uma pintinha no ombro. Não fosse a pintinha, tudo poderia ter sido evitado. Foi o que eu falei pro delegado.
Eu mordia a bunda dela no exato momento em que a polícia chegou. Boa parte da platéia no aeroporto nos aplaudia e protestava contra a polícia. Adoro Paris. Liberté! Liberté! Teve gente que achou que estávamos em um filme. Erraram. Vivíamos um instante. L’Instant. Instantes são para ser fugazes, surpreendentes. A diferença entre um instante e um momento é a surpresa. Um instante é um momento inédito e romântico.
Não a vi mais depois que ela já tinha ofendido toda a polícia do aeroporto, de Paris, da França, do mundo. “Merde” era o palavrão mais leve que ela pronunciava. Me liberaram momentos antes de meu avião sair. Depois da última chamada. Ainda quase perdi o vôo porque ela mordeu o lábio inferior de novo, desta vez o meu. Despedida é outra marca no tempo. Ela mordeu com força para garantir que eu não esquecesse. Ainda tenho a cicatriz. Ela marcou o instante. L’Instant. Não se deve fazer isto. Não se deve fazer tanta coisa… A não ser em Paris. Adoro Paris.
(Cesar Brod)
(Fonte: brodtec.com)
por Cesar Brod

Ana Luiza olha pra trás. A cidade agora lhe é familiar. Finda a faculdade e o mestrado, ironia do destino, o primeiro emprego em São Paulo, onde nascera. Parecia lembrar o momento em que nascera, de tanto seu pai contar a história. Por outro lado, parecia fadada a completar o sonho da mãe ao aceitar trabalhar em um grande jornal da capital econômica do Brasil.
Da janela do avião despedia-se de Porto Alegre, lembrando uma antiga música dos “Engenheiros do Hawai”, uma banda do tempo de seu pai. Seus cabelos loiros e olhos azuis entregavam a ascendência ítalo-germânica tão comum ao sul, mas também da família interiorana paulista de sua mãe. “Gringuinha” era como a chamavam na sua universidade em Lajeado, no interior - nem tanto - do Rio Grande do Sul.
Uma lágrima já escorria dos seus olhos quando Porto Alegre sumiu de sua visão. Ficou calada o resto do vôo, conversando em silêncio com o copo de whisky à sua frente, e lembrou do pai.
Pouco mais de quarenta minutos, Guarulhos. Avós no aeroporto. Saudades, beijos e emprego novo na segunda-feira. O tio Rodrigo a apresentava ao carro que iria usar - herança dele em vida bem viva.
Na segunda-feira, Ana Luiza ligou para o novo emprego, o primeiro, agradeceu a oportunidade e a declinou. Pegou o primeiro avião de volta para Porto Alegre. Pediu um café e lembrou da mãe. Ligou do avião mesmo para casa. A mãe a esperou no Salgado Filho e a levou de volta à Lajeado.
Em casa, os beijos foram sem culpa, sem nenhum sentimento ruim. Tudo estava nos conformes.
Ana Luiza foi para sua cama com um futuro em branco, a ser escrito por ela, e aí estava o bom da coisa.
Sua mãe a abraçou antes de deitar e seu pai a acordou um pouco depois, beijando-a como se Ana nunca tivesse saído de casa.
Ana nem sonhou, sequer dormiu naquela noite. Acordou antes de todos preparou um chimarrão, e a vida seguiu adiante como tinha que ser …
… Pois sem Ana, não teria seguido.
(Cesar Brod)
por Cesar Brod

Só sei que morava sozinha, mais nada, e que era - ou é, aonde estiver - jovem e bonita. Linda. Clara e não muito grande. Eu menino, doze ou treze anos, nem sei. São Paulo antiga. Me tirava dos brinquedos e dizia: “Vamos tomar chá?” - eu sempre ia. Chá bom, cidrozinho, pouco açúcar (ao menos perto da doçura dela). Seu perfume … Acendia um incenso, hoje sei o nome, antes só um palitinho. “Vamos relaxar?” Sim, sempre sim. Não havia não em nossa conversa. Sorria. Sorríamos. “Tira a minha roupa?” Sim. Devagarinho a camisa leve, o vestido rosa - a pele lisa, macia -, a sandália - o perfume -, o soutien -, o corpo certo -, a calcinha - perfume-, perfume, perfume. “Minha vez…” e me deixava também nu, tremendo, e eu não sabia o porquê, sabia que não era medo e que não estava frio. Hoje sei. Antes só gostava. Me abraçava, tremia, punha um disco, volume baixo como o volume do mundo naquele instante: Bach, sempre Bach, hoje eu sei. Me abraçava mais e me beijava com calor e água, muita água. Deitava-me no chão e deitava-se ao meu lado. De mãos dadas a impressão de um buraco sem fim, e era, mas íamos parar em muitos lugares. Lindos! E éramos nós, só nós. Lagos, montanhas, neve, cachoeiras, animais, ervas, verde, verde, verde. E mais longe outros sóis, mares. Sempre de mãos dadas, sempre em silêncio. Lua. Eu tinha a impressão de que nesses momentos mágicos era proibido falar. Só impressão. Nada era proibido entre nós. Nada, nada, nada. Corríamos, nadávamos e até voávamos. Era como um sonho e não sei se era. Seu sorriso…
Um dia não fui brincar. Estava estranho. Sabia que ela não iria e não quis arriscar uma decepção. Minha cota de decepções era pequena ainda. Mas senti um gosto de adeus na boca e corri até sua casa. Nada, nem casa. Verde, mato sim. Gelou-me a dor e olhei ao redor. Tudo novo, mudado. Olhei para mim, velho, cansado, mudado, 60 ou 70, pouco mais, talvez. Perdi a conta aos 12 ou 13, não estou certo… Do que eu falava? Não lembro… São Paulo antiga.
(Cesar Brod)
(Fonte: brodtec.com)
por Cesar Brod

“Você mexe com momentos meus
que já estavam tão longe
e traz tudo de volta
e agora o que é que eu faço
com isto tudo aqui?”
A voz da Ná Ozetti já estava rouca de tanto cantar a mesma música. Quando a saudade aperta os velhos discos de vinil voltam para o toca-discos. Também pudera. Receber pelo correio uma carta justamente nestes tempos de e-Mail. O envelope com as faixas verde-amarelas e o quadradinho onde dizia “via aérea - par avion”. Quando era pequena achava que tinham escrito errado no envelope, que deveria ser “via aérea por avião”, ainda que parecesse meio repetitivo. Precisou aprender francês para rir da sua ignorância infantil. No selo a Torre Eiffel. “Será que ele levou o envelope daqui?”, pensou. Na França, certamente, não se preocupariam em traduzir o “par avion”. E pensar que, em tempos de e-Mail, já houve época em que se usavam envelopes diferentes para enviar cartas por via aérea, par avion. O selo até era mais caro, mas chegava mais rápido. Tantas imagens voltaram à sua cabeça mesmo antes de abrir a carta, mesmo antes de olhar o remetente - mas mesmo sem olhar, já sabia que a carta era dele. Quem mais, na França, lhe escreveria uma carta? Ainda assim, virou o envelope, que de tão fino já a deixava identificar sua caligrafia. O que ele queria? Será que ia voltar? Já haviam perdido contato há tanto tempo… Coisas que acontecem: telefone uma vez por semana, e-Mail quase que diário, um cartão postal que outro, até que o tempo entre cada uma destas coisas vai aumentando: pessoas são pessoas mesmo. O Universo não se expande por acaso, começa com as pessoas se afastando umas das outras. O LP ainda era do tempo em que a Ná Ozetti cantava com o grupo RUMO, a música era do Luiz Tatit:
“Tem sido tão desconcertante
que eu fiquei sensível…”
Ele nunca falava nada a sério, e quando disse que iria para a França também pareceu brincadeira. “Meu Deus, quanto tempo!”, pensou ainda sem abrir a carta. Colocou-a ao lado do toca-discos e pôs a música mais uma vez para tocar:
“Você mexe com momentos meus…”
A garrafa de conhaque não era aberta há muito tempo, mas agora não tinha porque ficar fechada. A cor do conhaque lembrava a dos olhos dele, um castanho meio aguado. Prometeu que iria visitá-lo em Paris, só para poder dizer, quando acabassem o romance que nem haviam começado, a mesma coisa que o Humphrey Bogart disse para a Ingrid Bergman em “Casablanca”: “We will always have Paris…”. Ele não levou a sério quando na despedida do aeroporto ela disse: “eu ainda nem disse que te amo.”. Só abriu um sorriso e respondeu: “Vais ter tempo de me dizer isto em Paris!”. Nunca mais tocaram no assunto. Agora, com a carta na mão ela pensava que o medo de ter que dizer “eu te amo” foi o que a impediu de ir para Paris. Um “te amo” é coisa séria, tem que ter outro “te amo” como resposta. Ele nunca falava sério. Mesmo que lhe desse um “te amo” como resposta, como ela ia ter certeza de que não era brincadeira? Na dúvida, quem venceu foi seu medo. Quantas outras coisas ela havia deixado de dizer na vida…
“Você mexe com momentos meus que já estavam tão longe…”
Dormiu na sala ao lado do toca-discos e da garrafa vazia de conhaque. Ainda com dor de cabeça foi à agência dos correios e disse ao atendente que o endereço na carta era o dela, mas que lá não morava nenhuma pessoa com o nome do destinatário.
(Cesar Brod)
(Fonte: brodtec.com)
por Cesar Brod

Pindulico, o palhaço,
Era o astro do Circo
E não só por ser palhaço,
Por ter a cara pintada
E esbanjar gargalhadas, não!
Toda a graça do rapaz
Tinha uma outra razão:
Pindulico era pequeno,
Muito menor que o anão
Não, não como você pensou,
Ele ainda era menor
Ele era do tamanho
Do dedão da sua mão!
E nos dias de parada
- Que era quase todo o dia -
Então era uma piada!
Pindulico se escondia
E ninguém sabia onde…
Nosso Circo percorria
Toda rua da cidade
E um vozeirão se ouvia
Mas de onde ele vinha,
Você não imaginava!
E gritava:
- Hoje tem marmelada?
E o povo acompanhava:
- Tem sim senhor!
E continuava:
- Hoje tem goiabada?
E as crianças:
- Tem sim senhor!
E eram velhos e crianças,
Todo mundo escutando,
Todo mundo perguntando
De onde será que vinha
Uma voz assim possante?!
E quando enfim descobriam
Era uma só risada!
Pois a voz era dum nanico
Que estava escondido
Na orelha do elefante!
À tarde, então, todo mundo
Saia da sua casa
Iam todos ver o circo!
As crianças não continham
Uma ansiedade - que é assim
Quase uma dor de barriga.
Quando abriam as cortinas,
Desfilava todo o circo
Mas cadê o Pindulico?
Ele não aparecia …
Vai ver era uma surpresa,
Era o número seguinte!
E assim se sucediam
Mágicos, Tigres, Leões
- Todos lindos, que beleza! -
Mas o que todos queriam,
Este até agora nada …
E o circo ia adiante,
Motos, trapezistas,
Cavalos, equilibristas.
Quando vieram os palhaços
As palmas eram bem fortes!
Mas aquele palhacinho
Que todo mundo esperava,
Aquele, nada …
Aí o circo acabou
E para o “Grand Finale”
Vieram todos os bichos,
Veio tudo que é artista
E os olhos da criançada
Que mesmo com tanta beleza
Tinham um brilho meio triste
Se acenderam quando ouviram
Aquele vozeirão enorme!
Mas de onde ele vinha,
Você não imaginava!
E gritava:
- Hoje tem marmelada?
E o povo acompanhava:
- Tem sim senhor!
E continuava:
- Hoje tem goiabada?
E as crianças:
- Tem sim senhor!
- E o palhaço, o que é?
- É ladrão de mulher!
Mas traído pela sorte
Nosso tímido amiguinho
Que andava sempre escondido,
Acabou se dando mal.
De tanto lugar prá esconder,
Ele foi logo escolher
O rabo de um animal
- Um cavalo, prá ser claro -
Pois o bicho,
Pobrezinho, não sabia!
Sentiu aquela dorzinha
E resolveu soltar um pum!
O pum veio meio quente,
Misturado com cocô,
E o Pindulico, adivinha?
Foi cair todo cagado!
Todo fedido, o coitado,
No meio daquela gente!
Todo cheio de vergonha,
Mas todo orgulhoso que era,
Juntou toda a voz que tinha
E gritou:
- Viva, viva a criançada!
- Viva, viva o nosso Circo!
Todos então aplaudiram,
Todos deram risada
Achando que aquilo tudo
Fosse mais uma piada!
Se foi ou não, eu não sei …
Sei que hoje o Pindulico
Não escolhe prá esconderijo
O rabo de nenhum bicho.
Mesmo assim, se não tem jeito,
Se não sobra outro lugar,
Com uma rolha anda armado,
Afinal, um grande artista,
Tem que estar bem preparado!
FIM
(História de Anselmo Brod recontada por Cesar Brod)
Crédito da imagem: http://www.cookiejar.com.au
(Fonte: brodtec.com)
por Cesar Brod

É estranha a minha relação com São Paulo. Lembra a de uma namorada antiga. Depois de um fim doído, só ficam as boas lembranças. Abri a janela do 12.o andar de um hotel na Faria Lima para poder dormir com o barulho dos carros e da buzina que ouço longe em um túnel que nem sei qual é. Me relaciono com a cidade com um carinho que não tem mais porque, para sonhar com caminhos de volta que não quero e nem mais existem. O carinho agora é um carinho novo de tudo o que uma vez já foi. As luzes nas janelas vizinhas escondem de mim tudo o que podia ser e não foi, nem será.
Caminhar pelas ruas (onde tanto caminhei) trazem uma saudade estranha de um não querer voltar. Mas o que antes era desgosto é agora uma melancolia que define-se em si, e não requer explicação. São Paulo traz a delícia e a dor de que sou mais um anônimo, outra vez, e me divirto com isto. A cidade tem seus perigos dos quais ainda não dou conta, e navego imune por esquinas novas —- pois mesmo as esquinas velhas não se conservam a cada novo dia. São Paulo tem esta coisa de não repetir rostos, histórias e dores. São Paulo é sempre inédita em seus prazeres e descuidos.
São Paulo não dorme e não me deixa dormir. A necessidade de um estar presente, sempre, contagia até mesmo a quem não deveria mais ser estranho. E a São Paulo sou tudo, menos estranho. O mapa mental que tenho das cercanias me faz identificar que alguém cantou os pneus na Berrini, e outro ainda volta tardiamente da praia, em plena segunda-feira à noite, pela Bandeirantes. Os aviões voam baixo na noite sem nuvens da Ruben Berta, aqui perto. Chegar em Congonhas é sempre um rasante incômodo, mas necessário. O ritmo da cidade é necessário. Uma inevitável música em acordes dissonantemente dodecafônicos. Pierrot Lunaire Remix. Schöenberg revoltando-se na tumba.
Segue sem meus agrados, São Paulo. Mas não te odeio mais. Antes: te odiar como odiei beira um amor que não consegui explicar e ao qual eu não sobreviveria. Fugi de ti para me encontrar em mim, e para poder te visitar como quem visita um primeiro amor ao qual não se volta mais. Segue adiante teu rumo do qual não faço parte, do qual não faz parte ninguém. Reinventa-te como sempre, no infinito coletivo da soma dos teus anônimos.
(Cesar Brod)
por Cesar Brod

O mundo é cheio de impossibilidades, dois caminhos paralelos se encontram no infinito. Assim começava a fórmula com a qual buscava explicar porque a felicidade nunca pode ser completa. Cláudia entrava em sua vida em singularidades do universo, ou de um conjunto infinito de universos. Uma janela eventual permitia que um universo brevemente encontrasse seu paralelo, e nestes momentos estava Cláudia.
“Posso sentar-me aqui?”. Ele já havia espalhado suas coisas pelas quatro poltronas da fileira central do Airbus que ia quase vazio para Frankfurt, onde esperava poder espichar-se durante as onze horas de viagem. “A fileira 30 é a melhor para assistir ao filme.”, disse Cláudia já ajudando-o a arrumar suas coisas sem dar-lhe tempo para pensar. “Quando terminar o filme volto para o meu lugar e podes te acomodar melhor”. Só que agora ele já havia sentido o seu perfume, e seu desejo era que o filme não tivesse fim.
Cláudia, como ele, já assistira inúmeras vezes à “Quatro Casamentos e um Funeral”. Haviam saído com a idéia do “Festival de Filmes Repetidos” para que eternamente celebrassem a memória do primeiro encontro acidental, na viagem para Frankfurt. Cláudia cochichava em seu ouvido a cena seguinte: “Presta atenção agora! É quando ela vai dizer que ele vai ter que se casar com ela…”, como se ele já não soubesse. Abraçados no cinema eram mais um casal entre os tantos naquela nova cidade que o destino lhes havia reservado.
O “eu-te-amo” saiu fácil e foi correspondido, ainda que nenhum dos dois lembre quem disse o primeiro. Saiu da alma, antes que dos corpos, o primeiro “eu-te-amo”, antes mesmo que as bocas se encontrassem, quase que por um descuido programado, durante “A Bela e a Fera”, da Disney.
O mundo era outro no abraço de Cláudia. O tempo era eterno e o amor sempre novo. Os universos todos equilibravam suas energias naquele momento em que seus caminhos paralelos se encontravam. Com Cláudia havia descoberto um improvável infinito matemático, que ela destruía com a mesma facilidade que criava.
O “eu-te-amo” transformou-se em “acabou” num velho cinema de Amsterdan, ou São Paulo. Já faz tempo… Cometeram o pecado de tentar driblar o acaso para assistir “Summer of 42” (acho que foi Amsterdan), o filme preferido dos dois. Não deixaram acontecer: planejaram. Talvez soubessem, ainda que inconscientemente, que sua missão de equilibrar os universos um dia chegaria ao fim. Cláudia cochichou ao seu ouvido: “Ele ainda não sabe que ela recebeu a carta que tanto temia…”. Foi São Paulo, com certeza. Em Amsterdan o lanterninha não teria se importado. As pessoas deviam aplaudir e não reclamar quando o amor quer ultrapassar os limites.
O destino seguiu seu rumo. Ele encontrou Cláudia em outras rotas, mas nunca mais os universos paralelos se encontraram numa singularidade. Ele sentiu que tudo era passado num vôo para San Francisco. Cláudia, ao seu lado, assistia a um filme diferente. Fred Astaire nunca dançou com tanta tristeza em “Desfile de Páscoa” e “Top Hat”. Ambos conheciam o fim, mas ele ainda disse “eu-te-amo”, sem saber o que esperar como resposta.
(Cesar Brod)
(Fonte: brodtec.com)
por Cesar Brod