
Já faz bastante tempo que comecei a escrever um livro chamado “Fantasmas”. Ele é livre e vagamente inspirado em “A Christmas Carol”, do Charles Dickens. Tomei contato com ela, pela primeira vez, através de uma coleção de disquinhos de vinil com histórias de Walt Disney, no volume “O Natal do Pato Donald”, em 1970. Bem mais tarde, acho que em 1989, comprei em um sebo em Minneapolis a edição em inglês do livro. Acho que foi mais ou menos por aí que comecei a escrever “Fantasmas”. Minha ideia era a de escrever a história de um homem bastante comum, alguém verossímil, que pudesse ser qualquer pessoa que conhecêssemos. Carlos, o personagem principal, é esta pessoa. Ele vai vivendo sua vida dia-a-dia, não liberto totalmente de seu passado nem de suas neuras, às vezes assombrado por seus fantasmas, consolado por seu anjo (no caso, sua anja), até que um acontecimento especial faz com que passado, presente e a impossibilidade de um futuro se misturem. As idas e voltas do tempo fazem parte da ordem (ou desordem) na qual os capítulos estão colocados, mas acredito que eles possam ser lidos praticamente em qualquer ordem. Há capítulos que foram escritos e descartados por acabarem não fazendo sentido na montagem final mas, como em um DVD que recupera cenas que não fizeram parte do filme, mais adiante colocarei-os aqui também. Espero publicar mais ou menos um capítulo por dia, mas não prometo nada! O primeiro entra no ar em seguida!
A partida ->
Cesar Brod
por Cesar Brod

Passou os olhos com imensa saudade na casa que deixava. Ainda era madrugada e todos lá dentro dormiam, mas a sensação que tinha era a de que partia de uma casa vazia de gente e carregada de lembranças. Dentro dela sempre conviveu muito bem com estas lembranças e seus fantasmas, mesmo o seu, que materializava-se em idades diferentes cobrando dele o que já havia sido em seus muitos passados, e de certa forma ajudando-o a manter a sanidade e a alegria. Decidiu partir em uma das conversas com seu fantasma, quando concluiu que deveria continuar sua busca pela felicidade em algum outro lugar.
A casa parecia olhar para ele, seus olhos nas janelas do sótão. Os mesmos olhos que o aguardavam quando vinha da rodoviária carregado de malas a cada novo retorno. Em épocas que não morou na casa, ainda assim, cada visita a ela era um retorno. Agora, os olhos da casa refletiam sua saudade, mas nada lhe cobravam. Ele já havia assumido toda a culpa quando decidiu partir, mas seu fantasma convenceu-lhe que a partida já seria um sentimento muito pesado para carregar se a culpa fizesse parte da bagagem: “Deixa estar que a culpa é volátil, cicatriza como as feridas da infância…”
Na verdade, a culpa vinha de ter profanado a casa. Jamais deveria ter trazido para a casa de sua infância coisas que eram estranhas a ela, como o seu trabalho e até sua mulher e filhos. Não podia também esperar ou cobrar que a casa e sua família compartilhassem os mesmos sentimentos e a história que ele compartilhava. Para ele a casa era única, a Casa. Para o resto do mundo era só mais uma casa. Debaixo do cinamomo seu avô lhe havia dado o primeiro relógio. Uma vez riscara de giz toda a calçada de onde agora contemplava a casa e as primeiras luzes do dia. Mais um toque do relógio da igreja o lembrou que o tempo não havia parado, e com um último adeus no olhar caminhou ainda incerto de seu rumo, mas não teve mais coragem de voltar os olhos para a casa.
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Cesar Brod
por Cesar Brod

Fantasmas não eram novidade na casa. Sua tia já dizia que como na casa só havia morado gente da família, qualquer fantasma que a habitasse só poderia ser “do bem”. Mesmo existindo histórias de barulhos, vultos, sumiço e reaparecimento de objetos, muito poucos tinham mesmo visto os tais fantasmas e, se o tinham, preferiram nada contar, como Carlos. Ninguém poderia tê-lo preparado, porém, para o encontro com seu fantasma.
Foi numa madrugada de sexta para sábado, logo nos primeiros dias depois de sua mudança definitiva para a casa (ao menos, até então, era definitiva). Havia retornado de uma viagem a trabalho em Porto Alegre e no caminho de volta parou com os colegas para um jantar que começou com caipirinhas e continuou com cervejas até que o deixassem na porta da casa. Era a primeira vez que repetia-se, depois de muito tempo, a velha e gostosa sensação do retorno, só que agora não estava em visita de férias à sua avó. Agora morava na casa. Foi invadido por uma sensação de felicidade que nunca havia sentido antes, e como se quisesse que o tempo parasse por um momento a mais, ficou parado à entrada, como que meditando ou rezando uma prece de agradecimento.
Sua mulher e os filhos já estavam dormindo. Quando morou em outros lugares sentia uma enorme angústia em não ter alguém que o esperasse acordado, só para perguntar se estava bem, servir-lhe um leite quente ou só recebê-lo com um beijo. Na casa nada disto fazia falta. A casa lhe completava e supria suas carências. Tomou um banho e sentiu-se jovem, como se a água da casa lhe tirasse cansaço e o peso dos anos. Se alguém estivesse acordado tentaria contar da sua felicidade, do seu dia. Com todos dormindo deitou-se e rezou agradecendo aquele dia, todos os dias anteriores a ele que, se não foram os melhores, tinham o mérito de tê-lo trazido até este dia, e aos dias que ainda viriam. A felicidade, enfim, seria eterna.
Mal havia fechado os olhos e ouviu alguém o chamando: “Moço, moço, acorda!”. Ao lado de sua cama um guri de oito ou nove anos, com uma bomba de encher pneus de bicicleta na mão. Pensou primeiro estar sonhando, pois percebeu que o sol já estava alto, depois concluiu que devia estar tão cansado que teve uma daquelas noites sem sonho, que passam como que num instante. Sua mulher não estava ao seu lado, já devia ter acordado. “Moço, pode me ajudar?”
Percebeu que tinha poucas chances de convencer o menino a deixá-lo dormir mais um pouco. Devia ser algum amigo de seus filhos, que pelo jeito também estavam acordados, pois sua fisionomia lhe parecia familiar. Entregou-o a bomba e quase que o arrastando pela mão ao porão da casa mostrou-lhe a bicicleta cujos pneus não tinha força suficiente para encher. Estranhou que no caminho até o porão não havia encontrado ninguém, deviam ter saído. Carlos abaixou-se para colocar a bomba no ventil da bicicleta enquanto o menino, sem que lhe perguntasse nada, começou a contar seus planos para o dia: “Eu e meu amigo descobrimos um caminho de pedra, perto do arroio das freiras. Nós vamos descobrir algum lugar secreto, só nosso, e não vamos contar pra ninguém.”. Carlos riu enquanto enchia os pneus da bicicleta, uma Caloi muito parecida com a que tinha quando era criança, e disse ao menino: “Eu também já fiz muito disto quando eu era pequeno. A gente sempre descobria um lugar secreto com um amigo, só que aí mostrava para um outro amigo, que mostrava para mais outro, e quando ia ver, não era mais secreto…”.
Entregou a bicicleta com os pneus cheios ao menino. Ele agradeceu e já saiu pedalando portão afora, encontrando-se com outro menino na esquina, provavelmente o tal amigo. Assim que sumiram de vista o sol desapareceu. Carlos estava na varanda da casa, de pijamas, com a bomba da bicicleta nas mãos e olhando para a esquina onde os meninos desapareceram. Pensou em entender o que havia acontecido mas preferiu voltar a dormir e deixar para entender depois. Sua mulher não estava na cama. Normalmente ela ia dormir em outro quarto caso ele estivesse roncando, e como havia bebido bastante com os amigos no jantar, era certo que roncaria. Ainda antes de dormir ouviu sinetas de bicicletas na rua.
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Cesar Brod
por Cesar Brod

“Tu deves saber que podes conquistar muito além do que tens, Carlos.”
“Eu sei, Selene, e não é que eu não esteja satisfeito com o que tenho…”
“Mas tu não podes abrir mão da tua felicidade.” - interrompeu Selene.
“Será que eu não a tenho mesmo? Será que eu não tenho que me conformar com o que já conquistei e ser feliz assim?”
“Será que a felicidade é alcançada quando se deixa de buscá-la?”
“Eu não sei Selene. Esta é uma das respostas que não tens?”
“Não me provoca, Carlos, tu sabes que não tenho resposta alguma. A única coisa que faço é te ajudar a encontrar as respostas dentro de ti, e minha missão é te ajudar a ser feliz.”
“E aí, no dia que eu for feliz, tu não vais mais estar comigo? Não imagino uma vida sem ti e com felicidade ao mesmo tempo. Como é que funciona com as outras pessoas?”
“Eu não sei como funciona com as outras pessoas, já te disse …”
“Mas vocês não conversam entre vocês? Nunca pedem conselhos uns aos outros?”
“Carlos, imagina se tu sais por aí contando pra todo mundo que conversas com a tua ‘anja-da-guarda’, quantos vão te levar a sério?”
“Mas entre os anjos tem que ser diferente…”
“Tu já sabes mais de anjos do que deverias saber…”
“Como é que tu sabes que sei mais? Algum outro anjo te falou que um protegido dele sabe menos?”
“Não me provoca…”
“Nas minhas resoluções de ano novo escrevi que tinha uma ‘anja-da-guarda’, e que ela brilhava no escuro.”
“E alguém te levou a sério?”
“Acho que não…”
“Oh, que alívio! Minha identidade está protegida.” - disse Selene com a cara mais cínica do mundo, antes de dar um beijo em Carlos e sumir para onde quer que seja que sumam os anjos.
<- O fantasma | Prefácio | O que fiz nas férias ->
Cesar Brod
por Cesar Brod

Só pra variar, fui para Arroio do Meio. Estava muito frio. Quase congelei no ônibus. Meu pai ficou em casa então só fomos eu o Diogo e a mãe. Eu não queria sentar do lado do Diogo porque ele vomita a viagem inteira, mas a mãe pôs nós dois juntos porque senão não ia dar o cobertor para os dois.
Eu adoro Arroio do Meio e não sei porque o meu pai teve que se mudar. Quando chegamos na casa da vó ela nos deu canja feita com as galinhas que ela cria. Não tem canja melhor. Depois que o vô morreu esta foi a primeira vez que fui para Arroio do Meio. Meus primos estavam quase todos lá. Minha tia me deu dinheiro e eu torrei tudo em revistinhas.
Fiz um piquenique com os meus primos em Arroio Grande, onde mora uma irmã do meu avô. Lá tem um arroio (claro, né!). Tinha umas vacas que saíram correndo atrás de nós mas os meus outros primos que moram lá e entendem destes bichos espantaram elas. Mesmo frio, eu entrei no arroio. Minhas primas não quiseram. Eu vi uma aranha do tamanho de um bonde.
O meu melhor amigo não mora mais lá. O pai dele era funcionário dos correios e foi trabalhar em algum outro lugar. Eu e ele temos um lugar secreto perto de um caminho de pedras perto do arroio das freiras, que é outro arroio. Lá é tudo cheio de arroio. Acho que nunca mais vou ver ele em toda a minha vida.
Eu tinha mais um monte de coisas para contar mas a professora falou que era pra escrever só vinte linhas. Acho que ela tem preguiça de ficar lendo. Brincadeira, viu professora!
<- Selene | Prefácio | O fantasma II ->
por Cesar Brod

Carlos já tinha praticamente esquecido aquilo que resolvera achar que foi um sonho ao final de um dia longo. Quando morava em São Paulo já tinha “sonambulado”, uma ou duas vezes, e esta explicação lhe foi suficiente por alguns meses. Sua mulher havia viajado para São Paulo com as crianças para visitar sua família e Carlos ficou, pela primeira vez em sua vida, sozinho na casa. A casa nunca lhe despertara medo algum, mesmo depois que uma conhecida de sua tia disse “sentir presenças” nela. “Se tem alguma presença é da família mesmo, e aí está tudo bem”, retrucou uma outra tia.
Tinha acabado de jantar e ia assistir a um filme que havia alugado quando ouviu barulhos no andar de cima. Como estava ventando, imaginou que era alguma janela batendo e subiu para fechá-la. Ao chegar ao andar de cima viu que a luz do quarto que dividia com seus primos quando era pequeno estava acesa e dirigiu-se a ele para apagá-la. Sentado em uma das camas estava um jovem de seus 14 anos, que rapidamente tentou esconder uma revista que estava lendo. “Credo, que susto!”, disse o rapaz. Carlos também havia se assustado, até porque, desta vez, imediatamente reconheceu que o rapaz sentado na cama era ele mesmo, ou o que era ele há mais de 20 anos. “Tu não sabe bater na porta?” - perguntou sua imagem mais jovem. Carlos só conseguiu pedir desculpas e fechar a porta. Imediatamente a luz se apagou e, quando Carlos abriu novamente a porta, apenas a luz que vinha da lua cheia iluminava o quarto pela janela aberta.
Desceu as escadas e chegou a colocar gelo em um copo para servir-se de uma dose de whisky, mas desistiu. Seja o que for que acontecera preferiu refletir sobre isto sem a ajuda do álcool. Logo pensou que estava ficando senil antes de completar 40 anos. Sua avó havia falecido há pouco tempo, e lembrou-se que nos últimos meses de sua vida ela costumava enxergar pessoas que faziam parte da sua infância, seus próprios pais, e conversava com eles. “Estou ficando louco.” - disse a si mesmo.
Logo em seguida associou a experiência que teve há poucos meses com esta. O menino que lhe pediu para encher os pneus de sua bicicleta também era ele, ainda mais jovem. Sentiu-se num conto de Dickens: “Eu sou o fantasma dos natais passados…” - recitou, divertindo-se com sua comparação. Mais uma vez, preferiu não pensar mais no ocorrido, mas sem a desculpa do cansaço e da bebida desta vez foi mais difícil.
<- O que fiz nas férias | Prefácio | Ananda ->
por Cesar Brod

“Ela podia ter morrido, Selene.”
“Mas não morreu, fizeste a coisa certa.”
“Fiz o que meu instinto de pai mandou fazer, o resto …”
“Foi a vontade dela de viver e a tua vontade de que ela vivesse.”
“Tu viste como ela estava azulzinha?”
“Vi.”
“Tu viste que a pediatra estava assinando o estado de óbito?”
“Vi.”
“Ela disse pra mim que a minha filha estava fraquinha, muito fraquinha. Eu disse para ela que ela ia ficar boa. Não devia ser ela que deveria estar me encorajando?”
“Carlos, deixa passar, a Ananda está bem agora.”
“Tu sabias que ela ia ficar bem?”
“Não, Carlos, mas eu tinha fé em ti.”
“Ela já tinha um anjo?”
“Tinha, e ele também tinha fé em ti, pois naquela hora tu poderias ajudar mais do que ele.”
“Se ela morresse, eu trocava a minha vida pela dela.”
“Não há como fazer isto.”
“Se ela morresse, eu morria junto.”
“Aí eu não ia deixar…”
<- O fantasma II | Prefácio | Ananda vê seu fantasma ->
por Cesar Brod

“Pai, estou na casa da Juliana.” - disse Ananda ao telefone.
“Por quê, filha?”
“Eu estava sozinha em casa e dormi assistindo desenhos na sala. Acordei com um barulho no quarto.” - Carlos gelou, mas procurou manter a calma, enquanto Ananda continuava falando: “Quando fui ver tinha uns meninos tocando pandeiro no quarto, mas eu não fiquei com medo…”
“O que fizeste então?”
“Pedi para eles saírem, mas eles não saíram. Aí eu abri a porta e falei meio brava para eles que agora era para eles irem embora, e eles foram. Aí eu fui pra casa da tia e contei a história pra ela. Aí eu vim brincar na Juliana.”
“Filhota, tu sabes que quando estás sozinha em casa tens que trancar as portas…”
“Mas eu tinha trancado, acho que eles entraram pela janela do quarto.”
“Tá tudo bem contigo? Eles não encostaram em ti?”
“Não, pai, eles nem tinham cara de bravos…”
“Tá bom, filha, eu estou indo para casa.”
Quando Carlos chegou em casa sua tia e as vizinhas já sabiam do que havia acontecido. Luís, o outro filho de Carlos chegou a dizer que viu alguns meninos com pandeiros na rua. Ananda já estava começando a ficar assustada com a repercussão da sua história, a qual não havia dado assim tanta importância. Carlos pediu a todos que não falassem mais sobre isto com Ananda para não assustá-la ainda mais. Crianças de oito anos tem uma boa carga de imaginação. Em seguida, foi tentar achar como as “visitas” haviam entrado em casa. O acesso que eles poderiam ter tido pela janela era a partir do quintal onde ficavam os cachorros, que normalmente latem por motivos muito menores. Além disto, o chão, de terra, estava encharcado, e não havia sinal algum de barro ou sujeira dentro de casa. O assunto foi também esquecido, mas agora Carlos já tinha uma boa idéia do que Ananda poderia ter visto.
<- Ananda | Prefácio | Amor ->
por Cesar Brod

“Não te amo mais.”, disse Carlos à mulher, respondendo a uma torrente de palavras que não lhe faziam mais sentido. Foi um reflexo, uma tentativa desesperada de acabar com a sequência de reclamações sobre o que ele simplesmente era e não mais mudaria depois de tantos anos. Ainda que depois de sua afirmação tudo o que havia sido dito antes mudasse repentinamente de sentido, o que estava dito, estava dito. O efeito do “Não te amo mais” foi um silêncio imediato e pensativo, como se as coisas fossem vistas por Carlos e sua mulher por uma nova perspectiva: o pior já havia sido dito, dando espaço a uma nova e inesperada sinceridade.
“Como assim?”, perguntou sua mulher, como para reativar um diálogo que já tinha tido um ponto final. “Amor pra mim deveria ser incondicional, e cada vez mais estamos exigindo coisas um do outro. Parece que tenho que seguir um manual para agir corretamente contigo, e parece que tenho cobrado de ti coisas que eu não devia…”.
“Carlos, me perdoa. Não quero te mudar. Eu te entendo. Lembra que quando ainda namorávamos e eu te disse que ainda não te amava, e me disseste que nos amava o suficiente para nós dois? Mesmo que tu não estejas me amando agora, deixa que eu vou te amar por nós dois, e vou reconquistar o teu amor.”
Os dois se abraçaram e fizeram amor como há muito não faziam, mas para o coração de Carlos as palavras tinham sido fortes demais. Só mais tarde foi descobrir que naquele instante havia começado um adeus.
<- Ananda vê seu fantasma | Prefácio | Revistas ->
por Cesar Brod

A avó havia lhe dado dinheiro para comprar revistas. Mesmo passando as férias com o dinheiro que o pai havia dado, Carlos jamais conseguia gastá-lo - sua avó sempre dava um jeito de reembolsá-lo. Era a primeira vez que viajara sozinho para Arroio do Meio, um verdadeiro presente por ter completado 14 anos: entrar desacompanhado no ônibus. O dono da banca de revistas, claro, não precisava saber disto:
“Seu Alfredo, eu trouxe uma lista de revistas que meu pai pediu. Vou tomar um sorvete e depois passo aqui para pegar. Coloca a última ‘Mônica’ junto que eu pago com a minha mesada.”
Na lista de revistas, cuidadosamente datilografada, estava uma “Quatro Rodas”, uma “Veja” e uma “Ele & Ela”. Se seu Alfredo desconfiou do esquema, nunca disse nada. Ao voltar da sorveteria, Carlos pegou a sacola de revistas e saiu lendo sua ‘Mônica’ pela rua, com um leve complexo de culpa por usar o dinheiro que a avó havia lhe dado para comprar tantas revistas, quando a única que queria mesmo era a “Ele & Ela”.
Naquela tarde, Carlos praticamente não deixou seu quarto no andar de cima da casa. Logo à noite, sua avó reclamou que seu banho havia sido ainda mais demorado que o costume.
<- Amor | Prefácio | Amor II ->
por Cesar Brod