Reza a lenda que o restaurante “Junk Food Forever” começou a ser chamado “Fudevis” depois que o Mussum sentou seu grande forevis em uma de suas mesas. O Fudevis fica aqui na asa norte e seu diferencial é o variado cardápio, a mínima cozinha e o atendimento personalizado. Tipo, a cada cinquenta itens impressos, quarenta e nove não tem: “Hoje só estamos servindo o prato do dia!”. E isso acontece em qualquer dia da semana, menos nas quartas-feiras, quando o Fudevis fecha.
As promoções do Fudevis são especialíssimas! O meio “romeu e julieta” é o preferido entre os habitués da casa. Chega o novato, olha a carta de sobremesas com nove opções deliciosas e pede o petit gateau. Os que estão ao redor tentam disfarçar as gargalhadas. O garçom (nunca o chamem de garçom!) informa: “só tem sagu e romeu e julieta. O romeu e julieta é meio grande e não tem mais goiabada, só mel. Eu vou trazer meio romeu e julieta para o senhor”.
Naba (falei que o nome do garçom é Naba?) volta com uma tábua de carne muito suja, um cream cheese e uma bisnaga de mel. Pergunta ao incauto que acabou de comer o prato do dia (dobradinha com feijão branco) se quer seu meio romeu e julieta na horizontal ou vertical, com uma cara ameaçadora. Sem ouvir a resposta corta a bandeja do cream cheese em uma quase diagonal e espreme o que tem na bisnaga de mel por cima. A seguir, anuncia: meio romeu e julieta de graça por conta do otário aqui! Promoção! Promoção!
O Naba é prata da casa. Segundo dizem, ele estava dormindo no local onde foi construído o Fudevis, mas só foi encontrado muito tempo depois da inauguração do restaurante. Começou a trabalhar e depois de alguns meses passou a exigir remuneração. Na dúvida, virou empregado do local e o eterno funcionário do mês. Quando tentaram trocar a foto ele matou seu subsequente, aí acharam melhor deixar assim.
Trabalhar armado não é problema para o Naba, mas assusta os clientes. Em especial os novos e indecisos. O figura começa a folhear o cardápio, lê a descrição de cada um dos pratos e o Naba se inquieta. Afinal, senta ao lado do cliente e proclama: “hoje só tem o prato do dia!” O incauto ainda pergunta: “qual é o prato do dia?”. “Peraí que vou perguntar!”, responde o Naba.
A mulher do dono do Fudevis é amante do Naba, mas ele nem sabe. Pra ele é trabalho. Todas as vezes que madame pede que Naba a coma é em horário comercial. Assim, faz parte do serviço. O patrão só desconfiou das safadezas da esposa no dia em que o Naba cobrou hora extra.
por Cesar Brod
O Gordo, em um dia daqueles de verão brabo em Brasília, enjoou-se das manias da mulher. Madame é daquelas ratas de academia e viciada em comidinhas naturebas. O Gordo sonhava com um restaurante de junk food. O nome seria Junk Food Forever e o prato principal seria a dobradinha com feijão branco, tudo muito bem temperado e com muito toucinho de porco. O resto do cardápio ele elaboraria com o passar do tempo. Madame odiava a ideia.
Em um belo dia, Gordo foi chamado à sala do chefe na sede do banco em que trabalhava há mais de 40 anos. “Sabe como é, Gordo, estamos centralizando as operações, trazendo os sistemas todos para Brasília, tá vindo gente nova de todos os cantos do Brasil. Tu és funcionário antigo, tens um belo pacote da previdência do banco e a gente ainda tem um bônus pra te oferecer se quiseres…”. O Gordo nem ouviu o resto. Assinou a papelada e ainda antes de chegar em casa e contar a novidade para Madame assinou a compra de um terreno na asa norte. Antes de existir de verdade, o letreiro em neon vermelho com a inscrição Junk Food Forever e um porco ao fundo, totalmente inspirado naquele do filme Porky’s, já brilhava em sua cabeça.
O modesto sobrado em pé, cozinheira contratada, panfletos espalhados do final da asa norte até a esplanada dos ministérios, chegou o dia da inauguração. “Puta sorte! Caralho de Deus! Puta sorte!”, repetia sempre o Gordo ao contar que o Mussum, dos Trapalhões e dos Originais do Samba apareceu para experimentar a iguaria servida na estreia: dobradinha com feijão branco! “Cumé mesmis o nome do restaurantis? O quê? Junkis o quê? No Forevis? Ah, meu, pra mim isso aqui é o Fudevis!” E ficou Fudevis. A foto do gordo com o Mussum inaugurou a parede das celebridades do restaurante e é a única até hoje. Mussum morreu poucos dias depois, em São Paulo. O laudo oficial disse que foi problema do coração, atribuído por muitos ao entupimento coronário causado pelo toucinho do Fudevis. Verdade ou não, as pessoas não tardaram a ligar os abusos gastronômicos de Mussum no Fudevis, amplamente divulgados nas colunas sociais do planalto central, a seu falecimento poucos dias depois. “Nada a ver, mano! Um azar do caralho!”, chorava o Gordo, desolado, abraçado à foto do ídolo.
por Cesar Brod
John Voight era adido cultural americano e autor do livro “Fudevis - Food and other pleasures in Brasilia, the capital of Brazil”. Sempre chegava no Fudevis em um carro oficial do Itamaraty, a cada dia com uma mulher diferente. Depois que foi preso e, posteriormente, extraditado, histórias escabrosas a seu respeito foram surgindo nos principais periódicos da capital. As mais divertidas eram contadas justamente pelos motoristas do Itamaraty.
John sempre chegava na portaria do Ministério de Relações Exteriores ao final da tarde. Entrava no primeiro carro oficial que estacionava na porta do prédio e, quando o motorista lhe pedia o formulário do serviço de transporte, dizia: “Whatta fuck! Not again!”, e completava com um sotaque carregadíssimo, “que pourrah é essa de fourrmularrio? Pega na pourtarria amanhã, cacete!”. Ordenava ao incauto motorista que o levasse à asa norte, primeiro passando ali na 714/715 onde tinha que buscar a namorada para jantar com ele no Fudevis.
John vestia-se muito bem. Suas gravatas (nunca repetia uma!) eram um assunto de comentários entre os habitués do Fudevis. Mas o que o pessoal não conseguia mesmo entender era como aquele gringo e o Naba se davam tão bem. Talvez porque, dentre todos os que trabalhavam no restaurante, o Naba era o único que falava inglês fluente. A incoerência era que Naba mal falava português, ao que se sabe sequer sabia ler ou escrever, mas tinha um inglês fluente. Quando Naba serviu de testemunha de defesa no processo de deportação de John, falou em inglês e pediu um intérprete.
O Gordo mostra pra todo mundo, até hoje, seu exemplar autografado de “Fudevis - Food and other pleasures in Brasilia, the capital of Brazil”. Ele diz pra todo mundo que o livro foi escrito pelo pai da Angelina Jolie. John conhecia seu quase homônimo (ao menos dizia conhecer) e aproveitava-se da confusão. “All ‘hs’ are mute after all!”, dizia. O Naba ria muito e mais ninguém entendia a piada.
por Cesar Brod
Costa e Niemeyer jamais imaginaram a profusão de pequenos esconderijos que seu plano piloto propiciaria. Aqui na asa norte tem o Fudevis, um restaurante que fica naquelas ruelas entre as entrequadras. O Fudevis funciona de segunda à sexta e às vezes até abre para o almoço. O dono do Fudevis é o Gordo, casado com Madame. O principal garçom é o Naba, um baita negrão vindo do município de Cantar, em Roraima, com passagens pelo Panamá, Macaraíbo e Miami. Os principais fregueses do Fudevis são os desavisados, gente que está procurando alguma outra coisa e, por cansaço, sincronicidade ou destino, sentam-se à uma das mesas do restaurante.
O Gordo odeia essa coisa new age e ficou puto quando um povinho que acreditava que os ETs chegariam em Brasília adotou o Fudevis como ponto de encontro. Mas, segundo Magma, a líder do povinho, o Fudevis tinha aquela coisa assim. E assim foi, por meses e meses, os esquisitos comendo dobradinha.
Tem gente que não acredita em Deus. O Naba não acredita em vegetarianos com o mesmo fervor. Magma perguntou ao Naba se havia algum prato sem carne no Fudevis. Naba respondeu: “Tem! É a dobradinha sem bucho, é só tirar o bucho da bagaça e comer só o feijão branco.”. Magma perguntou, solene: “Vocês servem algum tipo de salada aqui?”. O Naba quase peidou de tanto rir com a pergunta. Alguns dizem que ele peidou mesmo!
Como os ETs nunca apareceram, o povo da Magma resolveu concentrar suas ações na culinária do Fudevis. Diziam que um lugar alternativo como aquele deveria servir algo novo e radical. Que tal trocar o bucho por tofu na dobradinha? Magma insistia que o Fudevis tinha aquela coisa assim.
O final da história é que a dobradinha do Fudevis ainda é feita com o bom e velho bucho. O Gordo pendurou uma foto da Magma na parede. Ele orgulha-se ao contar que descobriu o nome verdadeiro dela em uma noite de amor intenso e violento: Margarete Gomes dos Santos Magalhões (sim, Magalhões mesmo, provavelmente algum erro cartorial). Reza a lenda que Madame e Naba participaram desta insana noite de revelações.
por Cesar Brod
Gosto tanto do Mussum que tornei-o um personagem da série de contos “Fudevis”.
por Cesar Brod